| Junta de Freguesia - História da Terra |
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1. Historial
-Deseja Conhecer a Ameixoeira?
UM PASSEIO ATRAVÉS DA SUA HISTÓRIA

Observemos com a possível minúcia, um dos sítios mais amenos e desafogados, perante uma história milenar de Lisboa, parcelada na história das suas freguesias, a pequenina e alegre Freguesia de Nossa Senhora da Encarnação da Ameixoeira.
- Quantas pessoas a conhecem? – Quantas a têm explorado a preceito? A Ameixoeira merece atenção, não só como paisagem, mas também pelas suas tradições históricas.
- O leitor duvida?! Leia-se e julgarão se exagero.
Nestes assuntos arqueológicos são os mortos os melhores auxiliares do estudioso, as mais verídicas testemunhas do que já lá vai...
Interroguei as lousas funerárias da Igreja, os livros e documentos do seu Cartório, alguns papéis; tentei pois, desenterrar memórias autênticas. Isto de escavar em memórias é um entretenimento piedoso e que agrada! E depois ver aparecer-lhe, quanto menos se espera, uma sociedade que por aqui enxameou, edificou, viveu e quis aqui ser sepultada. Como foram os Foios.
Não foi insignificante, nem obscura, essa sociedade desaparecida; houve por aqui sujeitos notáveis, que não vamos enumerá-los todos, mas entre eles destacamos: Mendo de Fois, conselheiro e secretário de D. Pedro II; D. António Botado, Bispo da Hipónia e conselheiro do mesmo rei; D. Pedro de Foios, Bispo de Bona e igualmente conselheiro; Acácio Botado, Bispo de Siguença; António Velho da Costa, Desembargador; D. Miguel de Portugal, Conde de Vimioso; Francisco Feliciano Velho da Costa, Desembargador e membro do Conselho de D.João VI; Manuel Vieira da Maia, nobre fidalgo, etc...
O Padre João Baptista de Castro, Beneficiado da Sé de Lisboa, um estudioso que escreveu algumas obras piedosas, deixou o seu brasão literário em volumes históricos e corográficos, que intitulou Mapa de Portugal. A ele, pois, perguntámos, e ao Padre Luís Cardoso (o autor do Santuário Mariano), o que sabiam da Ameixoeira. Ouçamo-los:
Diz o autor do Mapa de Portugal que a Ameixoeira constava no ano de 1742, de 70 fogos e 241 almas, e o lugarejo estava subordinado nas causas cíveis e crimes ao Corregedor do Bairro de S. Paulo.
Escreveu o Padre Luís Cardoso que, segundo a tradição, a Imagem do Orago tinha sido achada num funchal (de que este lugar é fértil) e que daí lhe proviera o título de Nossa Senhora do Funchal, título que conservou até ao ano de 1541, em que se trocou pelo que agora tem, quando a Ameixoeira se tornou em Paróquia independente da do Lumiar por Breve do Papa Paulo III, no reinado de D.João III.
Várias são as versões sobre a etimologia da palavra AMEIXOEIRA. Alguns estudiosos que a ela se referem fazem-no derivar da palavra MIXO, um chefe moiro, que ali permaneceu, nos tempos da ocupação, e outros de MIXOEIRA, de AMEIJOEIRA, designação que nasceu de grande quantidade, especialmente, de ameijoas fósseis, que aqui apareciam e ainda aparecem. Ainda é possível passear pela actual Ameixoeira e, pelas azinhagas, reflectir no passado.
A descoberta de fósseis marinhos na Ameixoeira é provavelmente a origem do seu nome, o que faz recuar e suspeitar da existência de um braço de mar, ou do Tejo, que por aqui passou e corria. Os areeiros, que formam os cêrros, são certamente a sublevação metamórfica de bancos submarinos do que afirmamos.
É de supor terem por aqui habitado Romanos, confirmando-se tal suposição com uma lápide aparecida neste lugar pelos anos de 1719-20. Foi a Gazeta de Lisboa, quem o mencionou pela primeira vez, no seu nº.8, de 22 de Fevereiro de 1720, e dava o local do achado numa várzea junto da Azinhaga da Cidade, cuja propriedade era de António Sanches de Noronha e que ainda lá está, bem como a sua casa de habitação.
A habitação é de sacadas no 1º. andar, com rés-do-chão de janelas de peito. Em frente, separada por um muro, era a extensa parte rústica, várzea fértil, que ia até à Azinhaga de Santa Susana.
Um caminho, que levava à charneca, separava o prédio da sua quinta. Chamava-se Rua do Nascente, a actual Estrada de S. Bartolomeu.
Pertenceu tudo isto à família Noronha (ou Loronha) que certamente era ilustre, embora não pertencesse à estirpe da varonia, pois não usava o título de DOM.
Diz Anselmo Braamcamp Freire, mestre reconhecido em matérias históricas, que Loronha é corruptela de Noronha, pois designam a mesma raça. Mas outro mestre, o Visconde Sanches de Baena, diz no seu "Arquivo Heráldico-Genealógico":
"Fernão de Loronha descobriu a ilha de seu nome. Era chefe desta família no século XVIII, António Sanches de Noronha e Loronha, que vivia na sua quinta da Ameixoeira, termo da cidade de Lisboa".
Portanto, em 1720, quando apareceu a lápide romana, era dono da Quinta da Várzea o referido António Sanches de Noronha. Enviuvou em 1738 e deixou do seu casamento quatro filhas e dois filhos. Parece ter falecido em 1753, segundo o Rol dos Confessados, da Igreja Paroquial da Ameixoeira.
A LÁPIDE DEDICADA A QUINTO JULIO MAXIMO
A lápide achada era de "quatro faces, todas lavradas de escôda, e cada uma de quatro palmos e meio de largura, e oito e meio de comprimento". Tinha no alto "uma abertura em quadro, de um palmo de profundidade, e dentro dessa abertura, outra mais profunda em redondo, de altura de dois dedos, onde parece que estava encaixado algum busto ou urna".
Numa das faces lia-se:
D.M.
Q. JULIO MAXIMO
CAI ... NEPOTI. AFR ...
ORATORI
Q. JULIUS MAXIMUS
TER FILIO PIISSIMO
D.C.
Que traduzido, é: "Aos deuses manes. A Quinto Júlio Maximo Afranio (ou Africano) neto de Caio Afranio e Orador, dedica e consagra Quinto Júlio Maximo homenagem a um filho piedosíssimo".
Aí temos um documento claro de que as lágrimas de um pai que falava latim, correram ali há dois mil anos sobre as cinzas de um filho que estremecia; prova-se portanto que os Romanos habitaram estes lugares e arredores da Olisipo. É pena que tal lápide já não exista, nem tenha sido salvaguardada num Museu.
Depois que morreu Sanches de Noronha, anos mais tarde, o senhor Miguel António Trancoso veio a ser dono da Várzea. Num poço ali existente, quando se procedia à sua limpeza, apareceram vários objectos de cerâmica antiga, vasos de diversos feitios em barro cozido e outras peças, cujas preciosidades doou a um amigo.
Não faltou, claro, quem classificasse isso tudo de "Loiça de Moiros!"
De Moiros, também restavam vestígios, segundo a tradição popular. O local onde foi edificado em 1906, o Forte Militar, esse cêrro parece ser uma prova de habitação sarracena. Aí erguia-se um moinho denominado das Covas que se via em todos os contornos da Ameixoeira, pelas rasgadas vistas que do local se desfruta.
- Mas das Covas, porquê? – Porque numa ocasião, impossível de confirmar, ali apareceram covas e ossadas, que se julgaram da moirama. O povo tomou as ditas covas por islamitas, e daí deram o nome ao alto do cêrro. Só uma investigação, um estudo em pormenor, o confirmariam com acerto.
Mas o corógrafo Dr. Rodrigo Clemente de Abreu, no seu "Dicionário Portugal" , Vol. I, diz em 1879:
"Em 1719 apareceu no olival do Morgado do Outeiro, no lugar da Várzea, uma concavidade cheia de ossos humanos".
- Seria o Outeiro a Quinta das Covas? – Seriam esses os ossos a que se referia a inscrição da lápide?... Tudo vago e incerto.
Marcas cristãs são já mais autênticas, mas remontam apenas à segunda metade do século XV, tempo em que se achou a imagem da Virgem, abandonada no meio duma funcheira pelos moiros em fuga, numa batalha travada com os lusitanos. Logo se ergueu uma Capela a Nossa Senhora da Encarnação do Funchal, cuja festa passou a celebrar-se a 26 de Março, anualmente, e sempre muito concorrida de romeiros devotos e peregrinos.
Organizaram-se Confrarias. Como a Freguesia esteva dependente da do Lumiar logo trataram da sua separação, evitando assim que fossem para a Igreja do Lumiar, o dinheiro das esmolas, das promessas e os bens que ali deixavam os devotos. A separação deu-se em 1541, depois de muitos anos de desmandas. Pôde assim a Capela, através de obras que se fizeram, tendo à frente da Irmandade o Dr. Mendo de Fóios (beneficiando da ajuda de D.Pedro II), acrescentar-lhe o altar-mor e colocar nas paredes quadros do grande pintor particular do rei, Bento Coelho, e revestir as paredes de belos azulejos recortados, em 1681.
As obras foram decorrendo, até que D. João V para dar cumprimento a uma promessa de construir o Convento de Mafra, leva daqui os operários e as obras da Igreja Paroquial foram-se assim atrasando. Quando a Igreja estava erigida, no ano de 1755, dá-se o terrível terramoto que aqui foi bastante sentido.
Três fortes sacões acabaram por derrubar a fachada do Templo e a torre sineira, bem como parte do altar-mor. O povo, na sua maioria rural, com a Confraria e o seu Reitor Padre José Nunes Vieira, logo procederam à reconstrução da Igreja, tendo o Reitor contribuído com 1.273$055 reis que a Irmandade da Confraria lhe foi pagando.
Muitos palacetes, casas nobres e quintas, ficaram soterradas, que o povo com a sua coragem foi reconstruindo.
No século XIX, gozava a Ameixoeira de fama e proveito. Escrevia-se que este lugarejo com as suas longas vistas e imensos horizontes, matizando de verde as bem tratadas quintas, entre valados e caniços, onde corria perdida imensa água, na altura da Primavera aproveitada para a rega das hortas e dos pomares, onde se criava boa fruta entre o terrenos de argila e basaltos, terras que ficaram semeadas de crustáceos, devido a um braço de mar, que ali passou, fertilizando as terras com bom sucesso agrícola.
Constitui-se assim a sua paisagem de verde, a que o azul do Céu em uníssono se contrapõe.
Sítio dos mais aprazíveis do Termo de Lisboa, rural, bucólico e romântico, espaço de recreio e veraneio da nobreza e da alta burguesia que aqui desfrutavam de ares e vistas aprazíveis. Apesar de nos primeiros anos do Século XIX, se assumir como rota de passeios domingueiros dos alfacinhas, nos seus passeios às hortas. Gozava a Ameixoeira de bons ares, e era recomendada pelos médicos da cidade como Sanatório de doenças pulmonares.
Assinala a História que, no tempo das lutas entre D. Miguel e o seu irmão D. Pedro, em 1834 os absolutistas estiveram aqui, no adro da Igreja com D. Miguel, antes de se encaminharem para a entrada na cidade de Lisboa. Di-lo o Marquês de Alorna.
A Ameixoeira é uma Freguesia que abrange uma vasta área geográfica, com as suas casa dispersas. Embora o seu património não seja monumental, é no entanto, antiquíssima, com características diferentes, humana, rural e campesina, que vivem e habitam uma realidade diferente com forte tendência para uma população de origem diversa, especialmente oriunda do norte do País; consequência da procura de melhores condições de vida e relativa facilidade de se encontrar na cidade um emprego nas diversas fábricas. A Ameixoeira era propícia para isso.
Quanto aos seus ilustres habitantes, são nos séculos XIX e XX, notícia da residência da família dos Condes de Casal Ribeiro, do Visconde de Castilho (Júlio), da família Trancoso, e depois de Júlio Dantas, Dr. Mário de Castro, do médico Henrique Rothschild, do Conde de Monte Real, do banqueiro Augusto Carreira de Sousa, de Helena Vieira da Silva, do Dr. Almeida Lima; Fausto de Figueiredo; José Maria Martinho, coronel do Exército; Luís Eugénio Leitão, Deputado; Sebastião de Almeida Lima, Grão-Mestre da Maçonaria e Ministro no regime republicano; J.P. dos Santos Rebello de Carvalho, Cavaleiro de Honra da Soberana e Militar Ordem de Malta, etc.
QUANDO O REGIME REPUBLICANO CHEGOU À AMEIXOEIRA
Com a "Lei da Separação" de Afonso Costa, o ministro da Justiça interino Bernardino Machado, receando que os sacerdotes deixassem, como protesto, de exercer o seu ministério apostólico, enviou a todos os Administradores concelhios, instruções para intimarem os padres a administrarem os Sacramentos e a realizar "qualquer acto do seu ministério, incluindo a missa conventual", quando o povo o solicitasse (30-6-1911).
O mesmo ministro, em 25-7-1911, convidava os Bispos em circular, a enviarem as "ponderações" que o seu critério sugerir sobre a "Lei da Separação" do Estado com a Igreja, e a declararem "os seus sentimentos" para com as instituições republicanas. Não foram nada estáveis, levando mais tarde o Cardeal Belo, de Lisboa e o Bispo D. António Barroso, do Porto, a serem exilados, porque não transigem com o laicismo imposto.
Devido à situação em que as Igrejas se encontravam, sujeitas à destruição, ao roubo, à espoliação e ao incêndio, como mais vale prevenir do que remediar... a Irmandade da Igreja, fez um Seguro de Bens, em 29-4-1912, na Companhia "Probidade", no valor de seis contos de reis. Era o tempo de uma Política inquieta, fraudulenta, ambiciosa pelo Poder, que nos ensinaram a conhecer e a temer, com a sua doutrina anticlerical.
ARROLAMENTOS DOS BENS – Era mais uma lei inquisitorial, feita para passar os bens para a posse do Estado. Feito o arrolamento dos bens, recebeu o pároco Padre Delfim Simões Amaro, cinco meses depois da Junta de Paróquia, da qual fazia parte Pena Monteiro, a resposta, no qual pedia que fosse assinado pelo Juiz da Irmandade, Francisco Perestrelo de Vasconcelos, e devolvê-lo à mesma Junta, para o fazer seguir o seu destino. O que os governantes desejavam era ficar de posse do Templo. Mas o Juiz da Irmandade soube sempre responder-lhes à letra.
Perguntava o Administrador do 3º.Bairro: "...se essa Irmandade, efectivamente, se propõe encarregar-se do culto católico da freguesia nos termos do artº. 17 da Lei da Separação..."? A resposta era URGENTE!
O Juiz Perestrelo, não se fez esperar e respondeu: "... tenho a honra de comunicar que esta Irmandade continua efectivamente com o encargo do culto católico, como católico no seu Templo, de que é legitima proprietária, como provam os documentos autênticos de arrolamentos e os seus estatutos...".
Para não alongarmos em demasia este assunto, apenas acrescentamos isto: o PÁRACO, viu-se privado de receber Côngrua, que era o seu sustento. Mas o povo nunca lhe faltou com o necessário. Desde 1909 a 1918, o Padre Delfim aqui se manteve, "tendo de exercer a função de escriturário da Irmandade, da qual auferia o ordenado de 2$000 reis por mês".
Tudo foi correndo dentro do que era normal. Em 24 de Março de 1914, queixava-se a Irmandade ao Administrador do Bairro de que além do vandalismo de "derrubarem a cruz do Cruzeiro", posteriormente, "fora roubada a cruz de cobre que guarnecia a Porta do Cemitério", detrás da Igreja.
- Coisas dos Arriagas!...
Texto da autoria de:
Eugénio do Espírito Santo,
Investigador da história da freguesia.
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